
A febre amarela voltou ao centro das discussões científicas com a identificação do vírus (YFV) em mosquitos Aedes albopictus coletados na área verde urbana da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, no interior do estado. O achado é resultado de uma pesquisa entomovirológica conduzida após a confirmação de epizootias em primatas não humanos, incluindo bugios encontrados mortos na região entre 25 e 31 de dezembro de 2024. O estudo, intitulado “Yellow Fever Virus in Aedes albopictus Mosquitoes from Urban Green Area, São Paulo State, Brazil” (https://doi.org/10.3201/eid3111.250692) foi publicado na revista Emerging Infectious Diseases e traz novas evidências sobre a circulação do vírus em áreas verdes urbanas.
A febre amarela, doença infecciosa causada pelo vírus do gênero Orthoflavivirus, mantém ciclos de transmissão tanto urbanos quanto silvestres. Na América Latina, a transmissão silvestre predominante envolve primatas não humanos e mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes. Desde a década de 1940, a transmissão urbana não é registrada no Brasil, onde o principal vetor é o Aedes aegypti. Contudo, entre 2014 e 2023, o Brasil enfrentou uma expansão da circulação do YFV para regiões densamente povoadas, com registros fora da Amazônia. Estudos genéticos indicaram a dispersão viral para novas áreas a partir de 2017, e, no estado de São Paulo, depois de um período de circulação contínua entre 2016 e 2020, o vírus retornou em nova onda a partir de 2022, com epizootias em primatas não humanos em vários municípios.
No noroeste paulista, a circulação do vírus tem sido menos pronunciada em comparação com outras regiões mais florestadas, com a detecção do YFV em mosquitos considerados vetores secundários. Foi nesse contexto que, após a morte de seis bugios no campus da USP de Ribeirão Preto, amostras de mosquitos coletadas foram enviadas ao Instituto Pasteur, da Coordenadoria de Controle de Doenças, da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (IPSP), onde foram realizadas as análises laboratoriais de identificação taxonômica dos vetores e detecção do vírus.
O Dr. Eduardo S. Bergo, um dos autores do estudo, explica que, entre 7 e 9 de janeiro de 2025, a equipe realizou a coleta de mosquitos em plataformas instaladas a cerca de dez metros de altura nas copas das árvores e também ao nível do solo, com o uso de redes manuais e aspiradores entomológicos. No total, 212 fêmeas, distribuídas em 59 pools e pertencentes a dez espécies, passaram por análise laboratorial. A detecção do vírus da febre amarela ocorreu por RT-qPCR, e quatro pools de Aedes albopictus, que corresponderam a 55,7% dos insetos coletados, apresentaram resultado positivo.
De acordo com o pesquisador, as altas taxas de detecção em Aedes albopictus e a ausência de YFV em espécies como Haemagogus leucocelaenus e Sabethes albiprivus, normalmente associadas à transmissão silvestre, sugerem que Ae. albopictus pode ter tido papel significativo na transmissão do vírus entre primatas não humanos no cenário investigado. “Os dados indicam que Ae. albopictus, espécie amplamente distribuída no território brasileiro e com elevada capacidade de adaptação a ambientes de transição entre áreas naturais e urbanizadas, pode apresentar competência vetorial para participar da transmissão do vírus da febre amarela, sob condições ainda não totalmente compreendidas”, destaca.
Para o Dr. Bergo, esse estudo é importante porque, ao contrário de registros anteriores no Brasil, nos quais as infecções em Ae. albopictus apresentaram cargas virais baixas e sem isolamento do vírus, o caso de Ribeirão Preto revela infecção ativa e a circulação efetiva do YFV nesse vetor. “Embora os resultados não indiquem uma retomada da transmissão urbana, eles ressaltam a necessidade de vigilância contínua em áreas verdes urbanas, onde há a interação entre primatas, mosquitos e população humana”, acrescenta.
Por fim, o pesquisador enfatiza que a vigilância entomológica nessas áreas é importante para antecipar mudanças nas dinâmicas de transmissão. “O monitoramento das epizootias em primatas não humanos, que frequentemente precedem casos humanos, é fundamental para orientar a intensificação das ações de saúde pública, como a vacinação e o monitoramento vetorial”, reforça. Embora não tenham sido registrados casos humanos associados ao evento investigado, o Dr. Bergo lembra que a presença de pessoas não vacinadas em áreas com circulação viral mantém o risco de infecção. A imunização permanece como a principal medida de prevenção contra a febre amarela, sobretudo em municípios com recomendação ativa.



